30 de out de 2009

Lígia

Ela viria, de fato, com as costas cheias e um mundo sonoro de intenções transparentes.
Eu jamais faria uso novamente de entorpecentes pra sentir vivo o que já nasceu morto aqui dentro.
Ambos veríamos o fim solitário permear nossas nucas, soprar em nossos ouvidos, arrepiar toda a extensão de nossas colunas.
A fumaça que saía constantemente de sua boca atingiu mais os meus alveólos pulmonares do que qualquer outro.
Beliscando novos plays pra ter mais post, hard, heavy, folk-rock, ainda assim eu sabia que me aguardavam uma série de acontecimentos venenosos; e, quem sabe, proveitosamente, não daria curso em mais nada que não fosse o escrever como fuga.
Eu era em toda parte o forasteiro, carregava a face do ordinário, as membranas de todos os homens - e todos esses eram eu também.
Olhava o cansaço pelos olhos daqueles coitados em pé no trem, e mesmo tendo menos contas mensais pra pagar e ainda nenhum filho, éramos todos irmãos celebrando com o máximo de nossos corpos uma lenta volta pra casa.
Já não teria mais Cartola no almoço de domingo.
Em toda parte, transbordaria daquela infelicidade terrena com meus irmãos, assando mais carne, brigando pela derrota imbecil do mesmo time.
Faltando terreno pra emoções maiores, saberia de antemão que era um fim ridículo, mas o melhor fim que meus músculos suportariam.
E boa parte desse trâmite eu descobrira dois segundos antes de a beijar.






25 de out de 2009

Frederico

Não havia paradeiro. Não caberia só ao peito, abrir-se ao mundo. Um mundo de razões especiais fez óbvio o caminho que escolhia traçar agora. Apesar de em toda parte do tempo só tenha sentido que o caminho a tenha escolhido. Não gostava de meter-se em assuntos que não lhe diziam nada a mais; como anda a vida do outro, o que esse faz, se não faz, o que come, e por aí vai. A reunião de minutos que se acumulavam feito bônus, traziam colorido ao cinzento céu que discursava tanto em desenhar pelas andanças. E Frederico era especialmente a sina que delimitava suas maiores dúvidas e as maiores contemplações; desses percalços que nos fazem perder o ar, em que desacraditamos nos que os olhos insistem transmitir. Fôra toda culpa dele, em demasiado, o folk que tocava quase ao seu ouvido. E via as estradas, e os veículos abandonados; às vezes um belo deserto, ou uma varanda num fim de tarde ensolarado. Queria vingar a enorme nostalgia afiada entre os seios. Contudo, o jeito pra vida, em boa parte, ainda era o sonho, incontrolável e irreparável.



23 de set de 2009

Ainda um fio

Havia ainda o coração em algum canto. Nem o reconhecia. Sem meus melhores trejeitos,
ele andava pela casa atrás de cama e televisão. Um abandono mútuo de quando falta
muito pra não faltar mais nada. Entretanto, justo quando uma falsa ilusão do fim nos
tomou, eu o quis embaixo das asas. E quis muito ser visita. E terminar de ver aquele filme
do Kurosawa. Fazer a barba e ter dentes brancos. Recolocar as pilhas no rádio-relógio.
Acordar cedo e comprar jornal. Tirar fotos do entardecer, todos os dias. E ouvir a
respiração do pai pelo telefone. E entregar que pelo ontem já não posso mais.
E eu quero muito ser novo.
De novo.






6 de set de 2009

A menina de lá

Eu fico mais cheio de substantivos.
Reforçam o dobro do meu esforço pela revisão desta carta. Isso, e quem sabe mais, pela possibilidade mínima de rever "a menina de lá". Confesso que a memória peca demais. Perdoa. Fiquei o tempo de três músicas pra lembrar que não, em momento algum cheguei a te contar. Era assim que te nomeei pra contar nossas histórias aos outros, curiosos. O efeito surpresa perdeu-se depois.
O tabaco segue em menores freqüências. Não preciso relembrar minha pouca vocação para vícios de toda sorte. Quereria que acertasse mais alguns pormenores...
Augusto por exemplo, não ganhou efetivação. Perdeu muitos pontos com algumas atitudes tolas para a diretoria geral. Virou um chato clássico -não tem o que fazer e repara mais no que eu ando fazendo. Imaginei que citasse talvez o Osvaldo que pulava de alegria naquele aniversário do sobrinho, enquanto ouvíamos na vitrola Ahmad Jamal pra "viajarmos" todos juntos. E ele veio explicar, havia entendido enfim o sentido da palavra milagre. "Miracolo", dizia, é maravilhar-se - encantamento que valeria a crença de que o minuto vale vida inteira. Aí, admito a contradição com o tópico "memória" levantado no início.
Meus neurônios trabalham só pelo prazer dos mundos pequenos. Autismo em alto grau.

Deve ter questionado a demora, a falta de alarde, de notícias. Sabe que excita certa lentidão.
Meu masoquismo de esquina, lateja. Eu tinha que lapidar as melhores formas aqui dentro. Esperar o domingo chegar.

Preparar resposta pra todas as pequenas coisas. Isto é, as que realmente valem a pena. Infelizmente, toda essa escrita ainda guarda cheiros. E não preciso te adiantar o quanto o olfato é ponto frágil. As cartas vieram com aromas. Depois, teus telefonemas.
Já arranquei todos os fios do aparelho, e o celular, já entreguei as crianças aqui da rua.
Esse coração velho levantou cedo todos os dias. Usou o pretexto da pontualidade no expediente pra ter o máximo de rotinas.
De alguma forma, é querer te dizer: ainda dói. Cinematograficamente nada espetacular. Não mereceria grandes jantares, tampouco o derradeiro vinho chileno. Só quis um canto de castigo - olhar a parede fixamente, até tudo passar de forma gradual.
Tenho pensado demais. Mais.
O vaso de violetas sobreviveu. Reparei no mesmo dia que a carta chegou. Abri as janelas e ensaiei um grande tempo até levantar a aba com muito cuidado. Minhas cerimônias te impacientavam tanto que comemorei o gesto. Sério. Você é o "grande sem-querer".

O "miracolo" que viria me buscar.

E sim citando, quem sabe, de nuances: "Você, comigo vem e vai?".


3 de set de 2009

Vasta comilança.

"Ninguém quer discutir; ninguém
quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem "comer".
"
"A política republicana", da obra "Marginália" de Lima Barreto

30 de ago de 2009

"Homesick"

Voltei lembrando no coletivo.
Você correndo praquele avião que não te traria mais.
Eu ficando, e pequeno, distante.
Recolhia tudo que era resto, tudo que ficou espalhado enquanto se acreditava.
Ainda ouvia aquele disco da Sybille Baier quando chegava do trabalho.
Meus sapatos sendo mais que devorados no calcanhar.
Minhas plantas morrendo ali naquela janela que nem abriria mais.
Cantava baixinho e sentia o cheiro do fim daquelas tardes alaranjadas.
"E sobe o aroma de tudo que viaja", você sussurrava.
Eu não saberia dizer o quanto estou vivo.
Subindo a rua de casa percebendo que os cigarros estão acabando rápido.
Meu cérebro se aperta, ocupado em cobrar cantos pra lembranças assim.
Eu sempre queria você pra lembrar de pequenos fatos.
Porque eu não sei mais o que fazer nesses dias.
Perdi vendas demais essa semana, e o inverno faz silêncio demais em horas inapropriadas...
Então, e bem aí, eu só gostaria de não poder parar de ouvir essa mesma canção de todos os meus
dias, deitado no chão, fumando quieto o meu último resto de outono.


23 de ago de 2009

Helena

Seus olhos teriam mais graça sem essa televisão na frente.
Hoje é domingo. Eu não terminei o livro e faz muito frio lá fora ainda.
Depois do almoço eu perdi sua atenção pros comentários desastrosos daquele apresentador que
só você sabe nome - o verdadeiro - e gosta, por muito.
Mamãe passou aqui pela tarde.
Deixou um dinheiro pro gás e um pote de biscoitos.
Saiu dizendo "não estou afim de ver aquele grosso do seu marido hoje".
Eu não me importo mais, você sabe.
Mais do que a sensação vazia que invade o meio do meu peito aos domingos, é a vontade
eterna de cair nos teus braços como antes.
Você também sabe que eu não deveria dizer o que quero te dizer.
Essa é a maior das tempestades que atravesso.
Mas, eu ainda te amo muito.



19 de ago de 2009

O outro

Mais um blog de utilidade mínima.

http://odobro.wordpress.com/

PIOR, de minha autoria.

17 de ago de 2009

Qualquer

se tenho tudo eu quero o nada.
esse eu forçando as situações, as emoções - um mundo bizarro dividido em sub-categorias que não explicam seus porquês.
a palavra certa é aquela estampada na boca do estômago, nos restos de memória afetiva.
não é bem uma tristeza, principalmente aquela de antes - da fome de circunstâncias, sem o temor do fogo da batalha, fogo amigo.
é apatia feita sob medida.
como aquele terno que herdei do pai - ele menor e eu preso, não cabendo.
uma segunda-feira é muito útil pra soletrar as razões.
só que a luta tem sido vã nesta manhã.
fui ver o filme e sofri, desisti.
os minutos que insisti só serviram pra revelar um botão que eu não estava nem um pouco afim de apertar.
se é como eu avaliei, "apatia, apatia, apatia", o que são essas micro-partículas ensaiando um desencanto geral aqui no coração?


11 de ago de 2009

Parabéns pra você

Terminou em casa.
Ficou com o cheiro do perfume do último abraço.
Carmensita. Luana. Verônica. Pêlos de gato na blusa de lã. Cheiro de
vodca no cachecol. Outra noite curta. Os amigos cansando logo.
A comida fria, o dinheiro curto demais. Sobram reclamações.
O jantar acabando com cada um de volta a suas aquecidas cavernas.
Terminou em casa, então.
Acendeu o cigarro e foi pra janela.
Três horas e quinze minutos. Sete segundos. Seis.
Uma única luz acesa no meio da avenida. O caminhão do lixo.
Reuniu os últimos pensamentos como o lixo ali na esquina.
As baforadas lentas limpando os pulmões.
Sente o vazio e o estômago apertando, insistindo em pôr coisas pra fora também.
O calendário caindo logo atrás de si. O vento trazendo mais chuva.
O cheiro de terra assaltando lembranças da infância.
Alguém insiste ainda em King Crimson uma hora dessas.
O vizinho lhe dá trilha sonora pra finalizar o cigarro, vomitar no vaso do banheiro ajoelhado, e deitar na cama - se lembrando bem de antes desligar o temido despertador.
Hoje não foi bem um dia.
Terminou em casa.



24 de jul de 2009

Abel

Bom dia, corpo. Olhe os meus vestígios. Os restos de comida nesses dentes. Esses pés ainda
gelados. Não se assuste, corpo. O coração ainda rebate. Os olhos caídos na escuridão. O quarto
aceso. A cama quente. Mas não sentimos exatamente assim. São só memórias.
Sem suspiros, corpo. O dia ainda não nasceu. Estamos sem cigarros. Sem remédios. Existe uma
janela ainda. Não atire-se (atire-se!). Impossível. Estamos amarrados. A corda ainda está aqui.
Chamamos por Abel. Clamamos por Abel. Abel não voltou da padaria. Ou hoje é domingo?
Abel tem o futsal aos domingos. Não. Hoje é quarta. Segunda. Hoje é segunda, absolutamente.
Nasceu o dia. Gritamos por Abel. (Corpo, ajude com a voz). Mais voz. Mais grossa. Abel.
Queremos aqueles braços. Nos falta tanto. Abel somos nós. E quase nunca o é.



(fragmento)


*de que servem as férias mesmo?


22 de jun de 2009

Férias

17 de mai de 2009

Osmar

Estava atento aos caminhos de veias que circulavam pelos braços magros, sentado com a cabeça baixa, sem nenhuma coragem.
Um cigarro recente pendurado no canto da boca e
a fumaça engolindo o perfume que nem sabia marcar o ambiente.
A tendência era perseguir com os olhos todo o rastilho daquele barrio de pólvora ambulante - aquela mulher que lhe provocava fogueiras intensas - e para seu rosto, convinha a função delatória com o olhar idiota sempre.

Ela vinha desfilando com uma garrafa de vinho vazia nas mãos.
Pediu-lhe um cigarro e denunciou em alguma espécie de nano-segundo, um sentimento de queda por aquela criatura ali sentada com seu ar de prazo vencido.
Ela e sua intensa atração pelas veias e o que há nelas, deu baforadas lentas e quase quis devolver a quantia paga.
Lembrou-se da faculdade, a cerveja de sexta, e o convênio dos irmãos, vacilou.

Não devia isso nem aquele homem.
Tinha um coração pequeno que retia em suas rotinas particularmente voluntárias, a vocação tosca de amar o próximo.
Dizia que era o tal fetiche pelo sacrifício.


Ele, quando levantou a cabeça sentiu que escorria as cores de tudo pelas retinas.
Enquanto homem que era, morria lentamente pelo sabor de amar esse seu modo circular, essa pretensão de escolher na melhor merda um estilo de vida.
Quis que ela devolvesse o dinheiro, mas lembrou-se das labaredas imensas, dos olhos, das antigas promessas, o gosto do cigarro e a mancha de vinho que ficavam impresso nos dentes.
Enquanto mentalmente anotava um punhado de letras que pensava escrever mais tarde, ela tentava dizer-lhe que ali findava, que não tinha mais corpo, voz e vontade, que lhe faltava coragem por aqueles idos tempos, que doía a saudade de algo impronunciável.
Leu as entrelinhas daquele coração e calou o seu, pelo costume que suas cicatrizes haviam ensinado.

Seguiu sem conseguir parar de pensar nos feriados e datas santas, no intervalo das vértebras em uma coluna, nas manhãs que a barba esperava ser feita, nos acordes menores daquele samba cantado nos botecos, na criança que surpreendeu perguntando a mãe ao vê-lo caminhando pelo centro, "o que era aquele brinquedo metálico grudado em suas pernas?".

Desceu as escadas segurando as vertigens e dali viu a famosa e derradeira ladeira que precisaria transpor.
A vida essa, era mesmo de matar.


12 de abr de 2009

Romeu

Prepare o café sem açúcar e no tempo de dois cigarros busque no quarto uma pequena carteira na bolsa onde pequenos papéis determinarão a rotina do dia.
Volte pra cozinha e sente o mais próximo da janela onde verá uma manhã começando a colorir prédios vizinhos.
Aproxime do colo o rádio e siga notícias, atento mais as pontuações de horários rigorosas que os lances iniciais do caótico trânsito.
Retire então um dos papéis de letras miúdas e leia em voz alta:
- Hoje é o dia teu de partir.



*pro meu ariano blog cumprindo um ano de insistências.


26 de mar de 2009

parênteses

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros." - caio f.



17 de mar de 2009

o homem sem romance #9

Quando acordou sabia que ia morrer em instantes.
Não veria anjo salvador, não sobrariam cálculos para solucionar, e as louças e roupas carregadas de ócio e pó, fariam volume pelos dias que repassava mentalmente.
Seu suor escorrendo pela testa chegava ao colchão colado ao corpo, tudo um só corpo que emitia ondas espessas de um verão que teimava findar.

Contudo, quis imaginar o melhor verão de sua juventude, o frescor das roupas que gostava de vestir, as tardes longas de conversas com a mãe e a fumaça dos bolos de laranja, e café, os sorrisos dos amigos quando lhe fintavam por entre as pernas e marcavam gols, o calor úmido dos beijos das meninas nas festinhas, nos colégios, a troca de olhares gratuita, o queimar do rosto, da vergonha, do mundo interno inteiro em brasas.

Pequenos cortes de um filme sendo reprisados, nos últimos minutos seus que ainda lhe guardavam a vida.



10 de mar de 2009

o homem sem romance #8

Criou um login com nome de mulher.
Às quase quatro da manhã, declarou-se disposto a sexo casual + malabarismos de veterana naquele fórum costumeiro.
Enquanto o filho largava a cama pelo colégio, fingia gemidos e cumplicidades em salas de bate-papo.
Já no café da manhã, contava a mulher a dificuldade de expressar em muitas linhas sua tese sobre a existência do genocídio armênio; enfim, perdera toda a madrugada na labuta.
Seus óculos, meio tortos, teimavam em refletir a claridade intensa invadindo a cozinha, os pães e as tortas.
O ponteiro do relógio de parede ansiava o calor de pilhas novas.
Os farelos, em grandes fileiras pelo chão, cantavam risonhamente uma felicidade estranha.
Se pudessem usá-la em palavras, diriam que tudo o que não se sabe ainda, é melhor que o remédio alucinante que carregavam em essência.


24 de fev de 2009

o homem sem romance #7

"Quando estiver velho estas cicatrizes ainda vão me acompanhar.
O projeto de vida grande falido, os destroços de todas as manhãs que viraram tardes, as noites engolindo manhãs, sugados pela lembrança opaca dessas semanas vagas - cortando vegetais e colhendo cumplicidades pós-sesta.
Tudo afinado enquanto o som do avião demarca nostalgia e o ingresso do corpo moído nas grutas de solidões estampadas, feito mapas em meu rosto.
Tantas histórias de tesouros e extensos territórios que as tuas pernas tremeriam e não me sobraria outro recurso, tampouco remorso, de cortá-las só para lhe mostrar o tamanho exato destas raízes."




12 de fev de 2009

o homem sem romance #6

Ele precisava das férias forçadas.
Abandonou a esposa numa esquina erma com a sacola de frango frito pingando. Acelerou tudo o que não teve aquele Corcel.
Não tinha fome há anos, não tinha sede, não via silêncio, sossego.
Havia mais fundo nesse poço, mas a coragem já tinha vencido nas contas passadas.
Assim tudo fica muito rápido e fácil de se resolver.

Mirou a única porta que se abria ainda e atirou-se, sem pernas bambas ou colírios navegantes.
Sabia mesmo que seu espírito buscador lhe reservava intempéries, então, largar-se num foda-se, má idéia não seria.
Uma voz de mãe não lhe largava as idéias, num repeat infinito - "da vida, tudo se guarda".
Aguardou.

Ele precisava de férias forçadas, porém, só abriu um dos olhos.
Pôde ver bem simples, um pedaço de frango no seu prato e um outro na boca voraz da mulher.
Desse destino dos frangos todos ali já sabiam soletrar. Até calados.





21 de jan de 2009

o homem sem romance #5

"Fiquei olhando o jeito como mexia os lábios distraída e aguardava sua estação enquanto movia as páginas de "A Montanha Mágica".
Pelos cantos dos olhares, derrapei entre as frestas dessas janelas enormes e claustrofóbicas e timidamente me permiti encontrar os traços nela tão familiares aos meus gostos; meu amor pelas sombrancelhas das pessoas, das mulheres, das crianças.
Minhas mãos enrugadas procuram a ponta da revista que carrego e folheio - a melhor muleta de passeios aleatórios.
O segredo é esperar.
As coisas todas acontecem enquanto nos preocupamos em encontra-las à nosso modo.
A experiência me preparou a paciência como lazer e digressão.
O poder de fechar portas, receber educadamente pessoas e confortar-lhes com diálogos leves e até surreais.
Eu, meus temas e substâncias, gerúndios e conformismos, tentamos apagar a distância que nos separa desta moça e a montanha.
Esse abismo tolo cheio de nós."


16 de jan de 2009

o homem sem romance #4

"ela fica deste modo, assim" - vira pra ele falando sem parar; faz um gesto, pontua, acende um cigarro, segura um tempão entre os dedos antes da primeira tragada.
" ela é sem amarras, nem de piscar os olhos na hora errada" - contando já sentado, as pernas cruzadas, fazendo a porra de uma pose exagerada.
"você nem imagina as oportunidades, e é totalmente seguro..." -procura o cinzeiro sem lhe tirar os olhos, mira nas pernas muito musculosas do outro, despidas.
" é tudo uma grande encenação, mas pode ser muito excitante..." - coça o cavanhaque bem desenhado enquanto suga e prepara mais uma baforada.


o sujeito ali do outro lado, desenhando cifras até pela paredes, se convence que realmente tudo aquilo é uma merda e que não precisava mais uma vez daquele bosta em sua frente, não precisava ser assim, precisava fazer algo, fazer algo com aquilo que carregava entre as pernas, fazer aquele puto calar a boca, calar a vida aos solavancos, calar as contas, o cartão de crédito, a santa tatuada nas costas.

outro atende o celular - " ela está aí "

seu estômago doeu.
o intestino era muito frágil, nem café tomava mais, nem destilado, só água e
às vezes, as avessas.

ouviram ao longe o relincho.

num caminhão médio, uma égua havia chegado pelos portões do sítio.



15 de jan de 2009

o homem sem romance #3

"Acho que eu não tinha mais sonhos. Ou o que ainda sobrava deles era pura miséria. Eu não via muito jeito para as coisas e assim fui sendo, tendo meus modos e escrevendo tudo pela memória.
Das boas lembranças que guardo é de assistir pela janela da sala, meu pai saindo de carro pro trabalho e eu, estático, calado, observando cada movimento. Não esquecerei da idéia que me preencheu. Era algo como " ...por que eu vim mesmo pra cá?", " onde estava tudo era tão bom..."," o que eu estou fazendo aqui?". Chuto isso pelos meus 5, 6 anos. Ainda não tinha conhecido a escola. Já queria voltar. Já não era feliz."



12 de jan de 2009

o homem sem romance #2

(Atravessa o salão imerso pelos pensamentos mais imundos sobre Rebeca. Iam encontrar-se naquele botequim chique de sempre.
Rebeca: sempre o mundo mais estranho que lhe podia ter pertencido.)

- oi.
- oi.
- não entendo mesmo esse teu olhar, me diz, diz como é, diz como digo, como faço melhor teus dias, diz agora.
- vamos ali, eu te explico melhor, sintetizo
(odeio as sínteses dela)
- vai, começa.
- bom, eu não quero estragar tuas intenções - na verdade, quero sim - tô de viagem pro canadá,
(seguro um copo que um garçom trouxe, não sei se é água, martini, vodka, não lembro - entorno)
- aliás, vou amanhã.
- hmm, bom pra você, hein.
(vadia)
- tu não entendeu, cabou.
- tá.
(seguro o copo forte. é algum tipo de plástico. mordo o lábio, - vaca, vadia).
- fechamos.
- garçom, rápido, a conta.

(
Joaquim/Fernando/Solano/Tavares fica desenhando no guardanapo uma situação hilária mas não ri. Cantarola " Synapse, synapse: the possibility's thin... ", enquanto escreve a letra no mesmo papel. Ajeita as mangas da camisa. Em sua ilha, não repara a falta de um botão - que se tivesse visto, gostaria que agora estivesse perdido na bolsa de Rebeca.
E que de repente, explodisse.).


6 de jan de 2009

o homem sem romance #1

- deixa eu te falar da casa grande, do sofá que ficou, das ranhuras nas mobílias, aventuras e ponto finais, sobre cirurgias intermináveis, doenças de fácil contágio, efeitos dos entorpercentes nas minhas palavras, dos pensamentos que tenho nas viagens curtas e longas, loucuras e merdas que relembramos, saudades doídas no peito, nas sensações indefinidas, incestuosas, destinos não-calculados, deus, santos, promessas, sony, veias grossas dos braços dos velhos, metrô, o jornal daqui, o jornal de lá, o mais vendido, o suspensório daqueles meninos novos cheirando xampu que não arde os olhos, canções folk, conversas na tua cozinha, palavras-cruzadas, mind games, café, chá preto, torradas, laranja, o efeito bicolor dos cabelos, a minha enorme predisposição em falar, falar, falar e depois calar, mentir, inventar, cuspir as ordens, promessas, sem chaves, bandeiras, milagres, sentimentos de culpa, sem culpa, sem modéstia, sem pesar as palavras, segurar o pranto, avisar que o inferno já foi fodido, que não tinha jeito pra vida, nem pra morte, que vivemos uma perseguição vã, destrutiva, que não adianta calar os ventiladores, interruptores, cartões de crédito, o mundo só gira mais rápido e não é adequado pensar demais, o melhor era soltar, soltar, soltar, antes de ver que essa casa é grande demais, que eu sinto o fio da solidão nos pés gelados sem meia, sem um jeito melhor pra contar que sigo acendendo um rastilho de pólvora, que eu não quero explodir sem uma mão colada aqui na minha testa suada de todas essas febres...

(Um Joaquim/Fernando/Solano/Tavares sentado numa cadeira, meio arqueado, arfando, grunhindo, mordiscando as últimas palavras que lhe sobraram. Molho de chaves na mão. Chaves do carro. Chevette branco. Bem usado e gasto. Não menos que o dono.)

proje(c)to

etc.