24 de jul de 2009

Abel

Bom dia, corpo. Olhe os meus vestígios. Os restos de comida nesses dentes. Esses pés ainda
gelados. Não se assuste, corpo. O coração ainda rebate. Os olhos caídos na escuridão. O quarto
aceso. A cama quente. Mas não sentimos exatamente assim. São só memórias.
Sem suspiros, corpo. O dia ainda não nasceu. Estamos sem cigarros. Sem remédios. Existe uma
janela ainda. Não atire-se (atire-se!). Impossível. Estamos amarrados. A corda ainda está aqui.
Chamamos por Abel. Clamamos por Abel. Abel não voltou da padaria. Ou hoje é domingo?
Abel tem o futsal aos domingos. Não. Hoje é quarta. Segunda. Hoje é segunda, absolutamente.
Nasceu o dia. Gritamos por Abel. (Corpo, ajude com a voz). Mais voz. Mais grossa. Abel.
Queremos aqueles braços. Nos falta tanto. Abel somos nós. E quase nunca o é.



(fragmento)


*de que servem as férias mesmo?


proje(c)to

etc.