30 de ago de 2009

"Homesick"

Voltei lembrando no coletivo.
Você correndo praquele avião que não te traria mais.
Eu ficando, e pequeno, distante.
Recolhia tudo que era resto, tudo que ficou espalhado enquanto se acreditava.
Ainda ouvia aquele disco da Sybille Baier quando chegava do trabalho.
Meus sapatos sendo mais que devorados no calcanhar.
Minhas plantas morrendo ali naquela janela que nem abriria mais.
Cantava baixinho e sentia o cheiro do fim daquelas tardes alaranjadas.
"E sobe o aroma de tudo que viaja", você sussurrava.
Eu não saberia dizer o quanto estou vivo.
Subindo a rua de casa percebendo que os cigarros estão acabando rápido.
Meu cérebro se aperta, ocupado em cobrar cantos pra lembranças assim.
Eu sempre queria você pra lembrar de pequenos fatos.
Porque eu não sei mais o que fazer nesses dias.
Perdi vendas demais essa semana, e o inverno faz silêncio demais em horas inapropriadas...
Então, e bem aí, eu só gostaria de não poder parar de ouvir essa mesma canção de todos os meus
dias, deitado no chão, fumando quieto o meu último resto de outono.


23 de ago de 2009

Helena

Seus olhos teriam mais graça sem essa televisão na frente.
Hoje é domingo. Eu não terminei o livro e faz muito frio lá fora ainda.
Depois do almoço eu perdi sua atenção pros comentários desastrosos daquele apresentador que
só você sabe nome - o verdadeiro - e gosta, por muito.
Mamãe passou aqui pela tarde.
Deixou um dinheiro pro gás e um pote de biscoitos.
Saiu dizendo "não estou afim de ver aquele grosso do seu marido hoje".
Eu não me importo mais, você sabe.
Mais do que a sensação vazia que invade o meio do meu peito aos domingos, é a vontade
eterna de cair nos teus braços como antes.
Você também sabe que eu não deveria dizer o que quero te dizer.
Essa é a maior das tempestades que atravesso.
Mas, eu ainda te amo muito.



19 de ago de 2009

O outro

Mais um blog de utilidade mínima.

http://odobro.wordpress.com/

PIOR, de minha autoria.

17 de ago de 2009

Qualquer

se tenho tudo eu quero o nada.
esse eu forçando as situações, as emoções - um mundo bizarro dividido em sub-categorias que não explicam seus porquês.
a palavra certa é aquela estampada na boca do estômago, nos restos de memória afetiva.
não é bem uma tristeza, principalmente aquela de antes - da fome de circunstâncias, sem o temor do fogo da batalha, fogo amigo.
é apatia feita sob medida.
como aquele terno que herdei do pai - ele menor e eu preso, não cabendo.
uma segunda-feira é muito útil pra soletrar as razões.
só que a luta tem sido vã nesta manhã.
fui ver o filme e sofri, desisti.
os minutos que insisti só serviram pra revelar um botão que eu não estava nem um pouco afim de apertar.
se é como eu avaliei, "apatia, apatia, apatia", o que são essas micro-partículas ensaiando um desencanto geral aqui no coração?


11 de ago de 2009

Parabéns pra você

Terminou em casa.
Ficou com o cheiro do perfume do último abraço.
Carmensita. Luana. Verônica. Pêlos de gato na blusa de lã. Cheiro de
vodca no cachecol. Outra noite curta. Os amigos cansando logo.
A comida fria, o dinheiro curto demais. Sobram reclamações.
O jantar acabando com cada um de volta a suas aquecidas cavernas.
Terminou em casa, então.
Acendeu o cigarro e foi pra janela.
Três horas e quinze minutos. Sete segundos. Seis.
Uma única luz acesa no meio da avenida. O caminhão do lixo.
Reuniu os últimos pensamentos como o lixo ali na esquina.
As baforadas lentas limpando os pulmões.
Sente o vazio e o estômago apertando, insistindo em pôr coisas pra fora também.
O calendário caindo logo atrás de si. O vento trazendo mais chuva.
O cheiro de terra assaltando lembranças da infância.
Alguém insiste ainda em King Crimson uma hora dessas.
O vizinho lhe dá trilha sonora pra finalizar o cigarro, vomitar no vaso do banheiro ajoelhado, e deitar na cama - se lembrando bem de antes desligar o temido despertador.
Hoje não foi bem um dia.
Terminou em casa.



proje(c)to

etc.